Centenário de Paulo Freire ou a lição do átomo

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SABRINA SIQUEIRA

Jornalista e podcaster do Literatura Oral

Finalmente consegui assistir Chernobyl, produção da HBO, criada por Craig Mazin e dirigida por Johan Renck.

A série ficcionaliza as horas e meses que seguiram a explosão em um reator na usina ucraniana Vladimir Ilich Ulianov, mais conhecida como Chernobyl, em 26 de abril de 1986, na União Soviética.

O protagonista é Valery Legasov, um cientista envolvido na contenção do desastre. Ele existiu de fato e se suicidou dois anos depois, deixando fitas gravadas relatando sua atuação e o que considerou serem erros que culminaram no acidente.

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São cinco episódios muito bacanas e merecedores dos prêmios conquistados, em 2019. Se tiver oportunidade e estômago, assista. Não fossem os diálogos em inglês, último idioma que eu acho que seria falado na ocasião, seria uma reprodução bem fiel.

Mas quem se importa com isso, se a produção é britânica e, afinal de contas, the book is on the table? A fotografia prioriza as cores do que, para mim, são a tonalidade da URSS: marrom, bege e verde-água.

O que restou da usina ucraniana conhecida como Chernobyl em imagem feita no ano de 2008/Foto: Pedro Moura Pinheiro/ Flickr Commons

Nas cenas de Pripyat, cidade em que fica a usina, há o ruído dos aparelhos que detectam radiação no ambiente, um crepitar chiado de interferência, como das faixas de radiofrequência AM.

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Às vezes baixo, no fundo de um diálogo, às vezes como som principal da cena, o ruído anunciador de morte é a trilha do seriado e nos lembra que tudo que estava lá ficou contaminado, árvores, solo, rios e animais de estimação deixados pelos moradores no abandono dos lares, às pressas.

As consequências da explosão teriam sido agravadas, na série e fora dela, pela negligência das autoridades, tardando em isolar a área e pedir ajuda internacional para amenizar as perdas daqueles primeiros meses críticos em termos de contaminação radioativa.

A URSS teria optado por manter a pose frente ao Ocidente. Para tanto, um emaranhado de omissões e distorções enferrujava a máquina administrativa dos países da cortina de ferro, como foram chamados os participantes do Bloco Oriental de um globo em Guerra Fria.

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A série da HBO sugere que esse grupo estava falido, encenando prosperidade e experimentando penúria, utilizando materiais de baixo custo nas usinas nucleares, geridas por funcionários desinformados ou despreparados, quando não as duas coisas, o que colaborou para o que ficou conhecido como o pior desastre desse tipo de geração energética.

Quando a notícia da explosão havia vazado para o mundo, acontece uma reunião de três lideranças no gerenciamento da crise: o cientista Legasov, o ministro encarregado de agilizar uma solução e um chefe militar.

Um deles diz “o átomo nos torna menos arrogantes”, ao que outro enfatiza, “Não! Ele nos humilha”. No instante da explosão acidental gerada pela fissão atômica, tudo e qualquer coisa pela qual o homem já tenha investido tempo e energia pode ser aniquilado em centésimos de segundos.

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Todas as mentiras, delações, burocracia, sede de poder, arrogância, tudo é eliminado e o que permanece está condenado a perecer.

A série termina, desculpa o spoiler, com uma chance que na realidade o mundo não teve tão amplamente: o depoimento honesto das causas dos erros à comunidade científica.

Aconteceu, de fato, uma declaração com falas que teriam sido previamente censuradas pelo Comitê de Segurança do Estado, KGB, em uma conferência em Viena, capital da Áustria. A mesma Áustria que nomeou um centro de estudos em homenagem ao educador e filósofo brasileiro, Paulo Freire.

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Por favor, relevem o gancho ruim, mas eu abri o computador para escrever sobre o centenário de Paulo Freire, em 19 de setembro, e acabei me empolgando com Chernobyl, dois assuntos que não têm nada a ver – ou têm! Porque os fatores que levaram ao acidente de 1986 e as ideias difundidas por ele são opostos perfeitos.

Mais famoso educador brasileiro, Paulo Freire estaria fazendo 100 anos se fosse vivo. Autor de obras respeitadíssimas, Freire é reconhecido no mundo inteiro/Foto: Agência Senado

Paulo Freire ganhou notoriedade em muitos países por disseminar uma pedagogia ciente da validade dos saberes relativos do aluno e do mestre, da prática da humildade e da tolerância.

Ao expor sua pedagogia de inclusão, Freire encantou a parcela do mundo que aceita escutá-lo com pretensão de resgate humanitário pelo humano.

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Ele conectou o educar ao mundo das relações humanas, ao mundo como consciência de mundo. Porque ensinar e aprender não acontecem separadamente do ser humano e do estar no mundo, que é também o espaço da natureza e do desenvolvimento das tecnologias.

Para expressar a essência e a conexão de tais conceitos, recorria ao termo amorosidade, que deve ser lido em sua obra para além de um possível entendimento piegas.  

Na série, esconder a dimensão do desastre aos olhos de todos parecia ser a filosofia soviética. Muitas personagens investidas de autoridade representam negacionismo e desprezo pela ciência, além da crença na ilusão de que mentiras repetidas ganham ares de verdade.

Um tipo semelhante de contaminação ideológica acomete políticos brasileiros agora, e um dos sintomas é a tentativa do presidente e de seus aliados em desqualificar Freire na sua própria terra, quando outras nações reconhecem a pertinência da obra desse professor.

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Entre as causas do desastre em Chernobyl está a toxicidade do ambiente individualista em que todos vigiam e são vigiados, do universo de espionagem burocrata e de corrupção.

Do outro lado da moeda, o legado de Freire convida à amorosidade como compromisso existencial com o outro, empreendida através de uma pedagogia interessada no desenvolvimento humanitário. A fissão da partícula ínfima que é um átomo desestrutura nossas certezas, enquanto a generosidade mobiliza as forças atrativas capazes de sustentar ideais e erguer civilizações, porque se liga ao conceito de ética e priorização da vida.

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A frieza de um Estado que esquece existir para seus cidadãos se opõe ao conceito de amorosidade, como o autoritarismo se opõe a Paulo Freire. Um é agente do caos; o outro, provedor de harmonia.

Com seu método revolucionário de alfabetização, Paulo Freire é um educador cujas ideias contrastam com aquelas do ambiente individualista que resultou no acidente de Chernobyl/Foto: Reprodução TV Câmara

O principal argumento dessa série da HBO é o questionamento de qual é o custo da mentira. Para a União Soviética foi a perda do chão, metafórica e literalmente, já que a área considerada de exclusão é grande e segue sendo um território perdido, entre Ucrânia e Bielorrússia.

Segundo palavras do próprio líder à época, Mikhail Gorbatchov, o acidente catalisou o colapso da URSS, em 1991.

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A manipulação de dados parece tão persistente quanto a radiação e até hoje o número oficial de mortos revelado pelas autoridades é de improváveis 31 indivíduos. Mas os governos e grupos que apostam em fake news conspiram pela própria ruína e, cedo ou tarde, desintegram-se.

O que persevera e gera ambientes férteis são a noção de cordialidade e a ciência empreendida com seriedade, a serviço de um mundo melhor, como preconiza o Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire.

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