A polícia chega na entrada da comunidade e se depara com o portão de acesso trancado. Consegue avistar barricadas erguidas com todo tipo de tralha para dificultar o acesso deles quando romperem o portão.
Se entrarem no espaço de habitação popular, será paulada, quebra quebra, gente machucada, casinha revirada, gritaria, sangue escorrendo, cano furado, barraco estraçalhado. Era sempre assim quando a polícia entrava.
“De cada casulo espipavam homens armados de pau, achas de lenha, varais de ferro. Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez. […] A polícia era o grande terror daquela gente, porque, sempre que penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropício; à capa de evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos, quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão de ódio velho”.
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Essa poderia ser a descrição de alguma incursão da polícia em favelas de cidades brasileiras, nos últimos dias. Mas se refere à tentativa de impedir a entrada de policiais na Estalagem de São Romão, no romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890, que tem como cenário o Bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.
Sob o argumento de proibir jogos ilícitos, brigas ou aliciamento de menores para o tráfico, os agentes representam um Estado que não se mostra ali de outra forma, e por isso mesmo abre espaço para lideranças paralelas.
Impossível não estabelecer uma relação entre o texto ficcional e a realidade, especialmente com a notícia da chacina no Bairro Jacarezinho, RJ, na primeira semana de maio.
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Narrativas ficcionais não precisam ter comprometimento com a realidade, mas podem ser influenciadas por ela. Considerando que O Cortiço está inserido na estética do Naturalismo, que tem como uma de suas premissas a influência do meio sobre o comportamento dos indivíduos, é plausível dizer que Azevedo escreveu inspirado no que observava na capital da recente República: habitações populares sem infraestrutura ou planejamento, abrigando moradores pobres, e que seriam os primórdios do que conhecemos por favelas. Sendo assim, constata-se que a truculência da polícia nesses espaços remonta ao século XIX.
Azevedo foi perspicaz em inserir um policial entre os moradores do cortiço, o Alexandre, cuja esposa trabalha como lavadeira e uma filha foi dada para criação com a madrinha rica.
Com isso, indica que a polícia é mal remunerada e empobrecida a ponto de ter de morar no mesmo espaço que, quando uniformizada, representando o poder do Estado, não titubeia em assolar, invadir e quebrar.
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Um indício, a julgar que a obra se inspira nos fatos observados pelo escritor, de que a categoria é desvalorizada e despreparada há mais de um século.
O romance aborda ainda, indiretamente, o fato de os moradores do cortiço pensarem a curto prazo. Como a personagem Leocádia, que decide ir encontrar um vizinho, que há tempos a assedia, quando ele oferece um coelho como recompensa.
Durante o sexo, a personagem comenta que espera ficar grávida, para que possa se empregar como ama de leite dentro de alguns meses, o que é bem mais confortável que trabalhar lavando roupa.
E não reflete que um filho, além do leite que poderia gerar um emprego temporário, significa gastos e a demanda de cuidados por anos.
A atitude imediatista é sintomática da condição de pobreza em que as personagens estão inseridas. São pessoas vivendo à margem da estrutura que devia zelar pelos cidadãos, muitas das quais preocupadas com a urgência de ter comida para o dia seguinte.
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E quem está muito ocupado em sobreviver hoje, não tem tempo ou interesse para planejar um futuro longínquo.
Não fazer planos a longo prazo pode ser um indicativo da falta de perspectiva. E para quem não sabe o que será do amanhã e julga que a vida é curta, por que não se associar ao crime organizado, autoridade que está presente nas comunidades, diferentemente do Estado, que entra somente no papel de executor?
A questão não é ser contra que a polícia entre em comunidades populares para buscar e punir bandidos, mas treinar, educar e humanizar o policial, para que faça o seu trabalho conscientemente.
E que o Estado esteja presente na favela também com educação, saúde, lazer, oportunidade e dignidade para os moradores.
