SABRINA SIQUEIRA: Chatear e punir

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SABRINA SIQUEIRA – Jornalista e podcaster do Literatura Oral

Estou fazendo outra graduação, desta vez uma licenciatura. Desde 2015! Apesar de ser um curso em área afim a minha primeira formação, Jornalismo, quantas diferenças no agir e no pensar das pessoas, a começar pela burocracia do curso atual e pela forma como os professores deste entendem a docência.

Logo no início, quando solicitava dispensa de algumas disciplinas, uma docente famosa no curso ficou muito ofendida com tamanha ousadia e me disse “Não pense que isso aqui é o Jornalismo!”. Mas não haveria chance de cometer tal equívoco, senhora!

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Fico impressionada com a diferença de tratamento de alguns docentes para com os alunos, de um curso para outro. Na faculdade de Comunicação Social, responsabilidades similares ao que é executado na profissão eram atribuídas aos estudantes. Os graduandos depositários de tais competências gostavam de ser tratados como os jovens adultos que de fato eram, e não queriam perder essa atribuição, fazendo o melhor para agir como profissionais. No curso em que venho remando nos últimos seis anos, os estudantes são tratados como crianças sapecas que, se não estiverem sobrecarregadas de trabalhos, irão certamente perder tempo em diversão, o que não é aceitável em período letivo!

É como um trote de calouros que nunca termina, no qual se paga uma pena pelo crime de ter escolhido seguir essa carreira. A cada semana, uma avalanche de tarefas burocratizadas e muitas vezes descoladas de aplicação prática, às quais correspondem notas pulverizadas e a ameaça nem tão velada de reprovação, caso sejam negligenciadas.

Jornalista Sabrina Siqueira tem doutorado, está fazendo uma segunda graduação e questiona método docente em curso da da UFSM /Foto: Arquivo Pessoal

Até março de 2020, quando as aulas passaram a ser remotas, havia ainda o fantasma da reprovação por frequência, uma tempestade que virou o meu barquinho diversas vezes, tendo em vista que minha prioridade eram os compromissos do doutorado e cujos argumentos de que estava investindo tempo em outro nível do ensino superior, mas na mesma área, nunca soaram convincentes para os docentes que me reprovaram por faltas. Importante ressaltar que nem todos os docentes do curso que estou criticando apostam nas práticas infantilizadoras de cobranças, mas a mentalidade reinante, infelizmente, é a de chatear e punir.

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Entendo que alunos de graduação não devem ser tratados como crianças ou adolescentes no colégio. É outra etapa da vida, em que as pessoas estão nos respectivos cursos não mais pela obrigação de ter que ir à escola, mas por escolha própria e interesse de formação na profissão escolhida.

Deveria haver alguma liberdade de escolha quanto a quais disciplinas querem se dedicar e tempo para atividades extracurriculares, descobrir novos interesses, explorar possibilidades vinculadas à profissão. Mas o que eu vejo são (alguns) docentes assegurando a dedicação estudantil com uma enxurrada de trabalhos a serem entregues, pelos quais a gurizada recebe micronotas e é recompensada com aprovação.

Só que política de recompensa em curso de graduação está errado, não deveria existir! A recompensa deveria ser entendida como o privilégio de estar em um curso superior, recebendo ensinamentos, ampliando horizontes, ainda mais quando em universidade pública e de qualidade.

Para tanto, o ensino superior deve ser ensino superior, e não desdobramento de lições enfadonhas da época do colégio. Professores universitários deveriam aceitar, sem medo, que nem todos os alunos que ingressam em uma graduação serão apaixonados por todas as disciplinas que compõem aquele curso, e está tudo bem que seja assim!

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A fase adulta tem como premissa arcar com as consequências das decisões. Para quem não liga para essa ou aquela disciplina, a obrigatoriedade de entregas regulares periódicas não garante real comprometimento. As tarefas podem ser feitas de má vontade e o assunto esquecido um dia após o término do semestre.

O entendimento dos docentes que agem assim é de que essa é a única maneira de garantir a participação dos estudantes, mas não existe essa garantia. O excesso de exigências na graduação (falo especificamente do curso em que estou. Ou estava, até a publicação desta opinião!) infantiliza os graduandos, porque não permite que decidam como administrar seu tempo.

Campus principal da UFSM, no Bairro Camobi, em Santa Maria/Reprodução do Youtube

Muito em breve, esses adultos tratados como crianças que precisam cumprir um sem fim de tarefinhas estarão votando, participando da sociedade como cidadãos. Eles poderiam receber na esfera acadêmica a oportunidade de entender que suas ações desencadeiam consequências.

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Talvez isso refletisse positivamente nas eleições. Por exemplo, não sendo demasiadamente exigidos em disciplina na qual não têm interesse, e em contrapartida sabendo que poderão deixar de conseguir determinada vaga de trabalho pela falta de habilidade ou conhecimento aprofundado na tal disciplina.

Mas deveriam ter o direito a correr esse risco, a fazer escolhas. Poderiam aprender no tempo como universitários a exercitar a cidadania, como seres críticos e atuantes.

Notas e aprovação são ferramentas da demonstração de poder dos docentes. Se continuarem sendo usadas com autoritarismo, não se surpreendam se alunos trocarem voto por promessa de emprego ou outros prêmios, pois terão aprendido que suas ações têm preço e devem sempre ser recompensadas.

A mais nova estratégia de perversidade para manter os alunos em constante estado de alerta e punir os desavisados é colocar prazo de entrega de atividades na plataforma Moodle como um minuto depois da meia-noite. Assim, a plataforma mostra a data do dia da entrega, mas na prática a postagem da tarefa tem de ser feita no dia anterior, ou no primeiro minuto do dia cuja data aparece como deadline.

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Não consigo pensar em outro motivo dessa estipulação de prazos sem ser fazer “pegadinhas” com os alunos. Também me incomoda a apatia das turmas (que eu estou em praticamente todas, dado o atraso), pois em todos esses anos só escuto a minha própria voz reclamando. Pior ainda é pensar que, nesse curso, os egressos atuarão como professores, participando na formação de opinião de outros jovens e talvez reproduzindo a mentalidade do “faça para receber recompensa ou será punido com reprovação”.

Por mim, na universidade ideal, não existiria atribuição de nota numérica, mas conceitual – se bem que, mesmo conceitos podem ser problemáticos quando professores universitários inseguros querem demonstrar poder e espezinhar quem julgam inferiores. E aprovação seria consequência.

Isso resultaria na formação de indivíduos críticos, que se empenham em participar da rotina acadêmica por interesse genuíno e por entender que dedicar tempo a determinado assunto irá colaborar com o profissional que almejam se tornar. Ajudaria na formação de indivíduos politizados, no sentido de cientes de que cada um tem papel na engrenagem que é a sociedade.

Vista geral do campus principal da UFSM em imagens da TV Campus/Reprodução Youtube

Falando em ter tempo para descobrir na graduação encantamentos que não suspeitava, lembro das minhas aulas de radiojornalismo, com o professor Paulo Roberto Araújo. No primeiro dia do primeiro semestre dos tantos dessa disciplina com enfoque prático, a aula durou poucos minutos.

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Foi apenas o aviso de que, a partir da próxima semana, a faixa de horário especificada para o programa estudantil da Rádio Universidade estaria sob nossa responsabilidade e que ele estava ali para ajudar e tirar dúvidas. Turma dispensada. Mas ninguém saiu. Permanecemos até o final do horário previsto da aula e abordamos o professor pelos corredores inúmeras vezes ao longo da semana, para pedir ajuda e colocar no ar um programa bem-feito, de acordo com a responsabilidade que nos foi atribuída.

Não foi preciso nenhuma ameaça de “quem não fizer, não terá nota”, ou de “quem faltar, pode reprovar”. Na contramão de um discurso autoritário, estudantes respeitados retribuem com atenção plena e interesse verdadeiro.

Obviamente houve quem não gostasse da disciplina e preferisse dedicar tempo para outros assuntos, tendo sido aprovado na carona do grupo, mas isso sempre vai acontecer, é inevitável, e não é nem de longe um problema. Cada profissional em formação deve ser livre para virar o leme de sua embarcação para o lado em que pretende aportar.

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Ao invés de atrapalhar, os docentes deveriam muni-los de ferramentas para que essa viagem transcorra em segurança. Eu, por outro lado, entrei no curso para ser jornalista de impresso e nem queria saber de rádio, mas fui capturada pela magia desse veículo e pela maturidade que pairava sobre essa disciplina, emanada do docente com quem aprendemos o exercício de jornalismo em rádio em direção aos “focas” atarefados em colocar o programa Rádio Ativo no ar, a cada semana, com quatro convidados e muitas atrações.

Planetário da UFSM, um dos símbolos da instituição/Foto: Reprodução, Youtube, TV Campus

Para um graduando, é tão bom quando o professor confia que você consegue fazer, que você é capaz, e que faz sem a imposição de uma tarefa com prazo apertado. Essa troca de confiança é ensinamento para a vida, e não só para a aprovação semestral.

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A relação entre docentes e graduandos estabelecida com base no respeito mútuo entrega para o mercado de trabalho não apenas profissionais competentes, mas amadurecidos e seguros. O que é muito melhor que fazedores de tarefas e cumpridores de prazos.

Isso de entender que direitos acompanham responsabilidades e consequências, e de aprender a exercer a cidadania precisa ser praticado, e a Academia é um bom lugar para especialistas em formação treinarem essa prática também. 

Que bom ter tido professores com esse entendimento no curso de Jornalismo. Eles colaboraram com a jornalista cidadã que eu sou, e também com a professora que eu tenho plena capacidade de ser. Na época daquele convívio, eu era feliz e sabia.

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