Os 115 anos de Mario Quintana e um fato a esclarecer sobre o poeta

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LUDWIG LARRÉ

Jornalista

Mario Quintana nasceu no Alegrete, em 30 de julho de 1906, e faleceu aos 87 anos, em Porto Alegre, no dia 5 de maio de 1994.

Aproveito a data para compartilhar com os leitores depoimentos que colhi de pessoas próximas do poeta, no exercício de minha função de jornalista, servidor público, atualmente a serviço da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul e lotado nos mais querido espaço cultural dos gaúchos, que é a Casa de Cultura Mario Quintana.

Ano passado, voltou a circular nas redes sociais um texto repleto de inverdades que maculam a memória de Mario Quintana e, sobretudo, a relação do poeta com seu círculo de pessoas mais próximas, com o povo e as instituições do Rio Grande do Sul.

O lamentável episódio nos remete à reflexão sobre a responsabilidade da sociedade, como um todo, no combate ao compartilhamento de informação falsa, enganosa ou imprecisa, cuja disseminação pelas redes sociais se constitui em crescente ameaça às instituições e ao próprio Estado Democrático de Direito.

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Infelizmente, muita gente repete a história falsa de que o poeta, passando necessidades, teria sido despejado do Hotel Majestic – atual Casa de Cultura Mario Quintana –, jogado na calçada e acolhido pelo ex-jogador, treinador e comentarista de futebol Paulo Roberto Falcão, na época, proprietário de outro hotel.

O aniversário de 80 anos do poeta | Foto: Dulce Helfer

Eu já havia ouvido essa versão inverídica em relatos orais e sempre contestava com veemência o que vinha se tornando lenda urbana não apenas na capital dos gaúchos.

Quando o “hoax” ressurgiu com força no ano passado, na condição de assessor de imprensa da Casa de Cultura guardiã do legado e da memória de Mario Quintana, o primeiro passo para restaurar a verdade foi identificar a origem do malfadado texto e ouvir pessoas do círculo mais íntimo de convívio do poeta.

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Nossa apuração identificou a origem da informação falsa: um texto publicado no ano de 2012, por um blogueiro, médico e cronista esportivo do estado de Pernambuco.

O autor constrói uma versão fantasiosa do episódio em que Falcão hospedou Mario Quintana no Hotel Royal, situado na Rua Marechal Floriano, Centro Histórico de Porto Alegre.

O blogueiro sequer demonstra sensibilidade, preocupação e responsabilidade com a veracidade dos fatos. A narrativa irreal de miséria e abandono do poeta em nenhum momento deixa claro que se trata de um texto de ficção, como se justificou o autor quando confrontado.

A partir de então, o material teria sido replicado por outras publicações esportivas, inclusive na mídia impressa e, mais recentemente, compartilhado pelas redes sociais sem autoria definida.

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As inverdades e os fatos reais

O relato fantasioso afirma: “Mario observa as suas malas nas ruas de Porto Alegre. O Hotel Majestic mostrou ao passarinho o olho da rua (…) É a miséria chegando absoluta”.

A verdade é que Mario Quintana residiu no Hotel Majestic de 1968 a 1980, tendo deixado o local, sem sobressaltos, quando o prédio, já em decadência, foi comprado pelo Banrisul e depois, em 1982, pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, para ser transformado em Casa de Cultura.

Um dos testemunhos em favor da verdade é do também poeta, crítico de arte e ensaísta santa-mariense Armindo Trevisan, amigo próximo de Quintana.

“Simplesmente, Mario me disse que estava mudando de residência por razões de força maior. Inicialmente instalou-se no Hotel Presidente, na Avenida Salgado Filho, onde o visitei várias vezes. Visitei-o regularmente, a cada mês, nos últimos vinte anos de sua vida. (…) Mario saiu de lá com tranquilidade. Nunca o ouvi queixar-se de ter sido despejado do Hotel e de ter sido posto no olho da rua”, conta Trevisan.

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Sobrinha-bisneta do poeta, a jornalista e professora universitária Paula Quintana de Oliveira Biazus relata que, apesar de uma fase menos confortável, entre 1984 e 1986, período em que o Correio do Povo esteve fechado, Mario sempre levou um estilo de vida frugal, porém nunca enfrentou privações materiais.

“Ele morava em hotéis por opção, por não haver casado e, obviamente, isso demandava custos além do salário de jornalista. Nessa época, Mario já tinha uma obra consolidada, com mais de uma dezena de livros publicados, contratos com editoras e recebia direitos autorais das cerca de 130 traduções que fizera, de autores como Marcel Proust, por exemplo”, esclarece Paula.

A fabulação do blogueiro pernambucano insinua ainda um abandono familiar que nunca ocorreu. Mario, a essa época, ainda tinha uma irmã viva, que residia em Alegrete, e o irmão mais velho, Milton, bisavô de Paula, que residia em Porto Alegre.

“Quando já tinha certa idade, Mario chamou a sobrinha-neta, Elena, minha tia, para acompanhá-lo em uma viagem. A partir de então, Elena passou a cuidar dele. Artista e diretora de teatro, Elena se tornou braço direito do Mario e responsável por administrar as questões financeiras, com o suporte do advogado Marco Túlio de Rose, também amigo íntimo do poeta”, lembra a sobrinha-bisneta.

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Novo endereço temporário, o apoio de Falcão e as jovens guardiãs

Após deixar o Hotel Majestic, entre 1980 e 1984, Mario Quintana residiu no Hotel Presidente, que, no início desse período, teve outro nome e outros proprietários.

Comunicado previamente do fechamento do Hotel Presidente, situado na Avenida Salgado Filho, Quintana, que havia passado por uma cirurgia de catarata, recebeu no hospital a visita e o convite de Paulo Roberto Falcão, então atleta do Roma, da Itália, para residir como convidado no Hotel Royal, na Rua Marechal Floriano, de propriedade do jogador e administrado por seu irmão Pedro.

Nesse período, por volta dos 78 anos de idade, além da sobrinha-neta Elena e de um círculo especial de amizades próximas, o poeta ganha duas jovens amigas que se tornariam suas guardiãs, e com as quais estabeleceria sólidos laços afetivos. Uma delas, a repórter fotográfica Dulce Helfer, que viria a se tornar fotógrafa oficial de Mario.

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“Foi nesse curto período em que ele morou no Hotel Royal que nos conhecemos. Desde então, convivemos de forma muito próxima, ao longo dos seus dez últimos anos de vida. Todas as semanas tomávamos café, acompanhado de mousse de chocolate, e conversávamos muito”, lembra Dulce.

Já Sandra Ritzel, em 1984, ainda não tinha completado quatorze anos de idade, quando, na companhia de uma colega de aula, procurou o poeta no Hotel Royal, com perguntas elaboradas para um trabalho escolar do Colégio Rainha do Brasil.

Mario e a amiga Sandra Ritzel | Foto: Dulce Helfer

“Ele gostou das minhas perguntas, elogiou serem questões bem formuladas. A partir disso, fomos nos aproximando. Eu o visitava nas quartas-feiras, levava um docinho para ele, e ele me presenteava com livros seus autografados e também de outros autores”, conta a advogada.

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Tanto a sobrinha-bisneta Paula quanto as amigas Dulce e Sandra relatam que Mario Quintana permaneceu como hóspede de Falcão por alguns meses do ano de 1984.

O poeta havia sofrido uma fratura de fêmur e, após a recuperação no Hospital da PUC, a localização do Hotel Royal, em uma ladeira da Rua Marechal Floriano, dificultava a locomoção de Mario pelos locais que costumava freqüentar no Centro Histórico de Porto Alegre.

“Falcão teve muita importância, realmente ajudou o Tio Mario e devemos um grande agradecimento a ele”, observa Paula.

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Depois do Hotel Royal

Após esse período sob o acolhimento do amigo Falcão, ainda em 1984, Mario Quintana mudou-se para o Porto Alegre Residence Hotel, na Rua Desembargador André da Rocha, onde residiu ao longo de sua última década de vida.

“Não sou uma joia para viver guardado em uma caixinha”, teria dito o poeta, em seu humor característico, porém mostrando-se sempre grato pela acolhida de Paulo Roberto Falcão, conta Dulce Helfer.

Da passagem pelo Hotel Royal Mario Quintana levou a companhia da amiga Sandra Ritzel.

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“Ele corrigia minhas redações e chegou a ir dar palestra no meu colégio”, relembra.

Já instalado no Porto Alegre Residence Hotel, em um apartamento com quarto, sala e cozinha, onde podia receber os amigos, o poeta convidou Sandra para morar com ele.

Bilhete de Mario Quintana à amiga Sandra Ritzel

A jovem se tornou secretária e cuidadora de Mario, tendo sido a única pessoa com quem o poeta conviveu sob o mesmo teto na vida adulta.

“O poeta tinha uma vida simples, mas confortável, com tudo que necessitava. Ele recebia duas aposentadorias, direitos autorais e cachês pelo uso da obra em determinadas campanhas. Foi garoto propaganda do HSBC/Bamerindus. Em uma campanha publicitária de TV, Mario dizia: ‘nestes tempos bicudos, até um poeta precisa se preocupar com o seu dinheiro’. Quadros enormes com fotos e poemas eram exibidos junto às agências do banco. Foi Mario Quintana quem pagou minha faculdade de Direito na PUC RS”, emociona-se a amiga convertida em filha, neta e mãe afetiva do poeta.

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Ofensa à memória do poeta

A infelicidade da aventura literária do médico e blogueiro pernambucano, assim como a falta de cuidado daqueles que compartilham o conteúdo nas redes sociais, envergonham os amigos e mancham a memória do poeta e das pessoas com as quais conviveu.

“Um império sem homens e sem sentimentos. O porteiro aproveita e sacode um agasalho que tinha ficado no quarto. ‘Toma, velho!’ (…) A sarjeta aguardava o ancião”, escreve o desautorizado biógrafo.

Sandra Ritzel destaca que Elena, sobrinha-neta de Quintana, administrou muito bem a obra e a vida do poeta, o que garantiu a Mario uma velhice confortável. As amizades mais próximas de Mario Quintana testemunham que ele jamais foi tratado de forma desrespeitosa, por funcionários dos hotéis em que viveu.

LUDWIG LARRÉ – Crônica: Estátua viva

“No Porto Alegre Residence Hotel, onde morei com ele, Mario era tratado com todo o afeto. Até hoje, tenho contato com um funcionário da recepção, que o adorava e, diariamente, levava-lhe os jornais até o apartamento como pretexto para conversar e abraçar o poeta. Outro funcionário do restaurante do Hotel Residence levava os pedidos ao apartamento 805 para conversar em francês com Mario”, rememora a amiga.

Dedicatória do poeta à amiga Sandra

Em meio a outras ofensas irreparáveis, o blogueiro coloca sob infundada suspeita o tratamento que o poeta recebia da comunidade e das instituições porto-alegrenses. A gafe é de proporções bíblicas: “Porto Alegre nunca parecera tão fria e deserta. (…) Não olhe prá trás. Uma cidade que expulsa um poeta pode te transformar em estátua de sal”.

Com um mínimo esforço de pesquisa junto a fontes fidedignas o autor teria se deparado com vasto registro histórico da maneira como Porto Alegre acolheu o poeta alegretense, tratando-o como, talvez, o mais ilustre e querido morador da capital.

LARRÉ – Crônica: O Dia da Terra

Entre farta documentação que comprova a atenção da comunidade cultural e do poder público com o poeta, o Núcleo de Acervo e Memória da CCMQ guarda atas e outros registros da participação de Quintana no Conselho Estadual de Desenvolvimento Cultural (Codec), criado em 21 de abril de 1987, que viria a ser um dos embriões da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac-RS), instituída em 1990.

Mario Quintana integraria o Codec até março de 1991, bem depois de sua saída do Hotel Majestic e já com a Casa de Cultura em funcionamento.

Vale lembrar que, em 1967, Mario Quintana recebeu da Câmara Municipal de Vereadores o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre. Em 1976, ao completar 70 anos, recebeu a Medalha Negrinho do Pastoreio, condecoração do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, entregue a personalidades que prestam relevantes serviços em favor da pessoa humana, do Estado e da Pátria

O poeta na inauguração da Casa de Cultura Mario Quintana | Foto: Dulce Helfer

LARRÉ – Crônica: Um gato vadio, o mago e Raul Seixas

Em 1986, foi eleito Patrono da XXXI Feira do Livro de Porto Alegre. Mario Quintana recebeu títulos de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 1982), Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS, 1986), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS, 1986), Universidade de Campinas (UNICAMP, 1989) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1989).  

A revolta com as inverdades do texto do blogueiro não fica restrita aos familiares e amigos de Mario Quintana.

“É uma ofensa e um desrespeito ao poeta, à cultura e ao nosso Estado. É difícil ler o inapropriado, depois de ter lido textos e depoimentos de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Gustavo Corção, Paulo Rónai, Augusto Meyer, Paulo Mendes Campos, Guilhermino César, Sérgio Faraco, e Tania Franco Carvalhal, que organizou as Obras Completas e publicou estudos sobre a obra do poeta”, lamenta Sandra Ritzel.


O poeta recebe Caetano Veloso no quarto de hotel | Foto: Dulce Helfer

A amiga, secretária particular e cuidadora do poeta destaca ainda, como obra de referência, a biografia de Mario Quintana escrita por Márcio Vassalo.

Se Mario Quintana guardou alguma mágoa em vida, terá sido pelo fato de ter seu nome rejeitado em mais de uma oportunidade pela Academia Brasileira de Letras. Mágoa essa que, segundo alguns, teria sido dissipada nos versos de um de seus poemas mais divulgados, o “Poeminho do Contra”, publicado originalmente no livro “Caderno H”:


LUDWIG LARRÉ – Crônica: Comentarista do BBB


Poeminho do Contra (Mario Quintana)

Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!


Armindo Trevisan comenta que o primeiro verso do poema é intensamente agressivo contra os insolentes.

“Esses que aí estão… – como se dissesse: são uns ignorantes, uns presumidos! A seguir, ‘atravancando o meu caminho’ constitui uma declaração irônica contra a arrogância, seja de ricos, seja de plebeus.

Finalmente, em ‘passarão’, o aumentativo é de um desdém ostensivo, como se o poeta visualizasse no indivíduo prepotente um pássaro, que já não pode voar por sua obesidade, e está com as asas caídas, inutilizadas”, analisa o poeta, escritor e ensaísta, amigo de Quintana.

Talvez uma boa e merecida réplica à ousadia do blogueiro que, de forma nenhuma faz jus à percepção de seu conterrâneo pernambucano, um dos maiores nomes da literatura Brasileira.

Mario Quintana em seu quarto de hotel, ambiente recriado e aberto á visitação na Casa de Cultura | Foto: Dulce Helfer

“João Cabral de Melo Neto, ao vir ao Rio Grande do Sul, quando tive o prazer de acompanhá-lo em seus encontros, declarou que Mario era um dos poetas brasileiros que ele mais apreciava”, acrescenta Armindo Trevisan.

No instante em que reescrevo e adapto estas linhas resultantes do trabalho original mencionado, a voz de Mario me sussurra um poema no ouvido:

LUDWIG LARRÉ – Crônica: 1964 e algumas realidades alternativas


Da calúnia
(Mario Quintana)

Sorri com tranqüilidade

Quando alguém te calunia.

Quem sabe o que não seria

Se ele dissesse a verdade…

Se você tem curiosidade por mais depoimentos de pessoas ligadas ao poeta, entre elas o jornalista, professor e presidente da Fundação Theatro São Pedro, Antonio Hohlfeldt, confira o documentário “Mario inventa o mundo”, da Supernatural Filmes, com direção de Mirela Kruel, roteiro de Theo Tajes e produção executiva de Fernando Vanelli.

O filme, lançado nessa quinta-feira, está disponível no YouTube e no Instagram da Casa de Cultura Mario Quintana, que celebra o aniversário de seu patrono com uma programação toda especial detalhada no site da instituição.

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1 comment

  1. Sandra Alves Ritezel Responder

    Texto maravilhoso!!!! Gratidão!!!!

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